terça-feira, 31 de julho de 2012

escrevendo na pessoa do eu

Nascemos pessoas porque não havia vaga em outras vidas. A solidão é como um sinal de nascença que só sai quando se morre. Solidão não é contagiosa e pode ser hormonal.

Corto o cabelo por não poder cortar o espírito pra ver se ele cresce mais bonito.
Minhas mãos têm 60 anos e foram escritas antes de eu nascer. É muito provável que minhas mãos me escrevam há muito tempo. Acho que já fui vivida antes de viver.

O que é a maturidade senão a vergonha de estar errado
O que é a vergonha senão lembrar mil anos depois de que estava envergonhado

A gente devia, assim que nascer, escrever todas as coisas que possivelmente gostaríamos de fazer. Se soubéssemos escrever. Se soubéssemos saber.

A cabeça não pensa junto com o pensamento. Como seria bom ter três cérebros pra terminar de pensar o que o outro cérebro ficou com preguiça.

Por que quando os outros dizem que não conseguem escrever em primeira pessoa, eu quero ser como os outros?
Tudo o que escrevo é revisitado. Sou uma síntese de todas as minhas coisas e de mim mesma.
Hoje fui na rua e vi coisas velhas. Nunca vou saber se elas é que são velhas ou se sou eu.

São Longuinho e os três pulinhos que ninguém dá

- Procure direito
- Mas mãe, eu já olhei em todos os cantos e não achei

Aí ela foi lá e também não achou.

Mistério, pelo Dicionário Michaelis, é sinônimo de para onde vão as coisas que nem as mães conseguem achar. Não é isso que o dicionário diz, mas bem que poderia dizer.

- Tá vendo que procurei? 
- Como pode ter sumido?

A mãe ignora a filha que procura e admite o que antes era inconcebível, o sumiço.
Os cantos da casa que somem com as coisas são os piores inimigos das famílias. As chaves comemoram juntas no chaveiro de metal o palavrão da mãe. Os celulares vibram de prazer. As havaianas, malvadas, fazem duetos da Broadaway. As canetas desenham Van Gogh, extasiadas. Os cantos engolem a casa.

A vida é que nos engole e faz festa quando a gente procuraprocuraprocura e não acha. Quando o eu se perde do eu, aí [um palavrão de rima]. Não dá pra chamar a mãe pra achar o eu do eu. Nem a mãe achou a mãe da mãe. E vai ver a vida é só uma procura em que a gente esquece o que tá procurando no meio do caminho.